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文章基本信息

  • 标题:Focusing the essay/O ensaio em perspectiva.
  • 作者:Nascimento, Josyane Malta
  • 期刊名称:Acta Scientiarum. Language and Culture (UEM)
  • 印刷版ISSN:1983-4675
  • 出版年度:2016
  • 期号:January
  • 语种:Spanish
  • 出版社:Universidade Estadual de Maringa
  • 摘要:O ensaio e uma atitude gimnastica do intelecto que, repudiando o autoritarismo, pensa firmemente por si so e por si proprio. (Silvio Lima, Ensaio sobre a essencia do ensaio)
  • 关键词:Ensayos (Literatura);Filosofos;Literatura moderna;Subjetividad;Tecnicas literarias

Focusing the essay/O ensaio em perspectiva.


Nascimento, Josyane Malta


Introducao

O ensaio e uma atitude gimnastica do intelecto que, repudiando o autoritarismo, pensa firmemente por si so e por si proprio. (Silvio Lima, Ensaio sobre a essencia do ensaio)

O ensaio nao atinge a verdade, vive sempre separado dela, mas mantem vivo o sentimento dessa distancia [...]. (Eduardo Prado Coelho, O calculo das sombras)

No decorrer deste artigo, pretende-se refletir sobre o genero ensaio, desde a sua genese, com Michel de Montaigne, percebendo seus desdobramentos ao longo dos seculos, ate a sua recepcao no seculo XX, com a problematizacao do genero feita por Theodor Adorno.

As duas epigrafes supracitadas foram escritas em epocas distintas e compreendem a nocao de ensaio a partir de abordagens diferentes. A primeira integra a obra Ensaio sobre a essencia do ensaio, de 1946, de Silvio Lima, entao professor da Universidade de Coimbra. Em seu livro, Lima pretende pensar o ensaio a luz de sua genese humanista, seguindo a linha montaigniana. A segunda foi escrita meio seculo depois, em 1997, por Eduardo Prado Coelho, em seu artigo O ensaio em Geral (O calculo das sombras), titulo que estabelece um dialogo com um dos capitulos do livro de Silvio Lima: 'Principais caracteristicas dos 'ensaios' e de todo o ensaio em geral'. Coelho repensa o ensaio humanista e seus reflexos a luz do seculo XX.

Comecemos com o professor de Coimbra. Em 1946, Lima produziu um estudo de folego sobre o conceito de ensaio, buscando pensa-lo em sua essencia: naquilo que o distinguia de todos os outros textos e em sua genese. Para tanto, o autor comeca em Montaigne, no seculo XVI. Juntamente com inumeros outros estudiosos, Lima afirma que, com a obra Ensaios (Essais), Montaigne "[...] criaria literariamente--segundo se pensa e se diz--nao so a palavra ensaio senao que tambem um genero estetico novo: o ensaio." (Lima, 1946, p. 9, grifos do autor). De fato, os Ensaios de Montaigne tornaram-se referencia para os que se interessam pelo estudo desse genero. Nos tres longos volumes que compoem a obra, Montaigne escreve suas reflexoes sobre sua vida particular, familia, amigos, mulheres, sua doenca, o medo, a filosofia, a guerra civil que a Franca atravessava e, entre todos esses assuntos, a presenca sempre marcada da mitologia grecoromana e do pensamento dos filosofos socraticos. Demorou duas decadas para compor os 107 capitulos dos Ensaios, uma obra densa e extensa.

O verbo essayer, tanto em frances quanto em sua traducao para o portugues, 'ensaiar', significa por algo a prova, tentar, exercitar. Ha um descomprometimento com a perfeicao que, em se tratando de uma performance artistica--de danca, teatro etc.--so tera o objetivo cumprido no momento do grande espetaculo. Mas o ensaio reflexivo nao espera o show. Sua performance e um tipo de exercicio, e o desempenho de escrita, isenta do rigor, e o proprio espetaculo. Foi dessa forma que Montaigne definiu seus Essais, ao compara-los com o trabalho de um pintor que executou sua obra tendo o cuidado de apenas preocupar-se com o lugar onde colocaria a gravura, deixando por conta da fantasia todo o restante:

Contemplando o trabalho de um pintor que tinha em casa, tive vontade de ver como procedia. Escolheu primeiro o melhor lugar no centro da cada parede para pintar um tema com toda a habilidade de que era capaz. Em seguida encheu os vazios em volta com arabescos, pinturas fantasistas que so agradavam pela variedade e originalidade. [...] fiz, pois, como o pintor, mas em relacao a outra parte do trabalho, a melhor, hesito. Meu talento nao vai tao longe, e nao ouso empreender uma obra rica, polida e constituida em obediencia as regras da arte (Montaigne, 1972, p. 95).

Alem da falta de rigor artistico, tambem a ausencia de teor cientifico e valorizada nessa forma de escrita que Montaigne chamou ensaio. Por isso, ele considerava que a experiencia do individuo era indispensavel para a melhor compreensao e elaboracao desse tipo textual. Alem da presenca da subjetividade autoral, Montaigne tambem acreditava que um texto so poderia ser bem apreendido se proximo da linguagem comum que, segundo ele, seria mais atrativa e inteligivel para o leitor:

Por que nossa linguagem comum, tao comoda e facil, se torna obscura e ininteligivel quando empregada em contratos e testamentos? Por que os que se exprimem tao claramente quando falam ou escrevem, nao acham jeito de nao se confundir ou se contradizer em atos desse genero? E porque os principes dessa arte se aplicam com especial cuidado em escolher vocabulos solenes, frases artisticamente construidas, e tanto pesam cada silaba, sutilizam cada termo, que nos embaracam e embrulham na multiplicidade das formulas e das minucias; e nao mais distinguimos regras ou prescricoes e nao entendemos absolutamente mais nada (Montaigne, 1972, p. 482).

Percebe-se, com os excertos, que o autor dos Ensaios acreditava que a razao nao era o bastante para satisfazer o desejo de conhecimento, por isso a 'experiencia' (entendendo-a como vivencia) era o recurso preferencial de sua escrita: "O desejo de conhecimento e o mais natural. Experimentamos todos os meios suscetiveis de satisfaze-lo, e quando a razao nao basta apelamos para a experiencia" (Montaigne, 1972, p. 481). De acordo com Lima, Montaigne integraria uma geracao de filosofos do primeiro momento do Renascimento. As novas descobertas do seculo XVI dilatariam os horizontes renascentistas, alargando-os nao so territorialmente como, tambem, intelectualmente.

Tres palavras estariam associadas ao universo dos primeiros anos de 1500: ousadia, duvida e liberdade. Ousar era a palavra de ordem. Por isso, a valorizacao da experiencia da tentativa, da ousadia foi tao reiterada nos Ensaios. A duvida proviria do medo do novo e a liberdade seria associada ao livre exame dos valores do passado e das surpresas do desconhecido. A genese do ensaio, com Montaigne, estaria associada a ousadia, duvida e liberdade, no livre exame das possibilidades:

Em resumo: no seculo XVI, quando em 1580 surgem os 'Ensaios' de Montaigne, ja o autoritarismo medievo, consubstanciado no peripato, sofrera rudes golpes belicos vibrados pela razao critica, pelo experimentalismo da 'nuova scienza' ou 'ars inveniendi', que anos depois Galileu definiria e iria estruturar, com pujante fecundidade. Montaigne 'mergulhara' nesse heroico ambiente de liberdade investigadora e os seus 'Ensaios' serao um produto do livre-exame (Lima, 1946, p. 26-27).

Como produto do livre exame de suas experiencias, os Ensaios adquirem, como aponta Lima, caracteristicas pessoais. Afinal, Montaigne anuncia que escrevera Ensaios de uma vida. A preposicao 'de' torna-se fundamental para se entender a subjetividade imputada as paginas do livro. Nao se trata de ensaios 'sobre' algo, mas ensaios intrinsecamente ligados a 'uma' vida:

A linha evolutiva do ensaio, gravada no cilindro rotativo dos seculos, consiste precisamente no transito gradual do pessoalismo de Montaigne (ensaios de) para o impessoalismo (ensaios sobre) (Lima, 1946, p. 82).

Outras configuracoes do conceito de ensaio

Se com Montaigne o ensaio apresenta caracteristicas subjetivas, no decorrer dos seculos, o genero passa por uma objetivacao e, ja com Rene Descartes, no seculo XVII, ira receber caracteristicas impessoais, sobretudo se tomarmos como exemplo o Discurso do Metodo. Enquanto a ciencia--entendendo-a como discurso racional da logica--para Montaigne, mostrava-se insuficiente para o exercicio da reflexao, para Descartes, ela era essencial. Embora apenas poucas decadas separem os dois pensadores--Montaigne (1533-1592) e Descartes (1596-1650)--, Descartes estava mais proximo da Revolucao Cientifica que se desenvolveu durante o seculo XVII e que ecoou definitivamente no mundo ocidental moderno.

No Discurso do Metodo, o autor ja anuncia como guiara o seu texto: "Para bem conduzir a razao e procurar a verdade nas ciencias" (Descartes, 1996, p. 3). E sera a Verdade, em seu maximo universalismo, que o filosofo frances perseguira nesse ensaio. A maxima 'penso, logo existo', que viraria, entao, uma especie de mote do iluminismo, expressa bem o espirito racionalista que permeia o Discurso do metodo. Se a busca de uma compreensao de nossa existencia acompanha o homem desde tempos imemoriaveis, nao seria diferente com Descartes. Porem, o filosofo busca o sentido de sua existencia a partir do logos. Pensar, na maxima cartesiana, refere-se ao poder racional humano. A razao e, dessa forma, para Descartes, a unica maneira de se aproximar da verdade e afastar-se da duvida.

Porem, logo em seguida, percebi que, ao mesmo tempo que eu queria pensar que tudo era falso, faziase necessario que eu, que pensava, fosse alguma coisa. E, ao notar que esta verdade: eu penso, logo existo, era tao solida e tao correta que as mais extravagantes suposicoes dos ceticos nao seriam capazes de lhe causar abalo, julguei que podia considera-la, sem escrupulo algum, o primeiro principio da filosofia que eu procurava (Descartes, 1996, p. 15).

Descartes distancia-se de Montaigne duplamente: primeiro, porque o autor dos Ensaios nao almeja buscar a verdade. Essa ideia de verdade universal e gerada e propagada pelo Iluminismo e somente no seculo XIX comecara a ser questionada, sobretudo com Nietzsche, so para citar o mais evidente. Outro ponto que afasta os dois ensaistas refere-se ao culto da razao que, em Descartes, evidencia-se em todo Discurso do metodo, enquanto em Montaigne destaca-se o gosto pelo memorialismo, como ele explica no 'Aviso ao leitor': "[...] sou eu mesmo a materia de meu livro" (Montaigne, 1972, p. 54). Seu autorretrato engendrara suas mazelas mais intimas, inclusive confissoes sobre sua vida sexual. Trata-se de um livro

[...] composto unicamente de assuntos estranhos, fora do que se ve comumente, formado de pedacos juntados sem carater definido, sem ordem, sem logica e que so se adaptam por acaso uns aos outros (Montaigne, 1972, p. 95).

Conforme as palavras de Montaigne, trata-se de um livro composto por fragmentos e, como ele proprio destaca, 'sem logica'. Evidencia-se, ai, a ideia do 'eu' fragmentado, e nao do individuo enquanto unidade.

A racionalizacao presente no Discurso do metodo reflete-se em todo o texto, que se constitui por uma geometrizacao na propria forma: "Se este discurso parecer muito longo para ser lido de uma so vez, poder-se-a dividi-lo em seis partes." (Descartes, 1996, p. 3). Pode-se dizer que se trata de uma experiencia de leitura geometrizante, pois cada paragrafo parece estar previamente planejado, calculado. Nesse sentido, ha um abismo entre Montaigne e Descartes. O primeiro deixa seu texto fluir de acordo com sua memoria, discorrendo sobre as acoes humanas a partir de acontecimentos, de sua experiencia de sentir e observar o outro e a si mesmo. E comum, por exemplo, no decorrer das paginas dos Ensaios, encontrarmos frases iniciadas por "Mostra-me a experiencia que [...]" (Montaigne, 1972, p. 326). Ja em Descartes, destaca-se o metodo --como o proprio titulo indica--cientifico-matematico, sobretudo tendo como aparato a razao como fundadora de suas certezas:

No entanto, o que mais me satisfazia nesse metodo era o fato de que, por ele, tinha certeza de usar em tudo minha razao, se nao a perfeicao, ao menos o melhor que eu pudesse (Descartes, 1996, p. 16).

A propria pluralizacao 'ensaios', que da titulo a obra de Montaigne, demonstra que o intelecto nao deve se esgotar em uma unica tentativa, mas em varias, como um exercicio, o que "[...] sugere a tese de que o ensaismo implica um plurilateralismo da visao racional" (Lima, 1946, p. 106). Para Lima, pluralizar o vocabulo ensaio nao se deve ao fato de Montaigne ter escrito uma coletanea de textos, principalmente porque o filosofo teria retomado sempre os mesmos temas no conjunto de ensaios:

E por ser uma coletanea, ou miscelanea de capitulos, que Montaigne chamou 'ensaios', e nao 'ensaio', ao seu livro? Nao o creio. Montaigne retoma o mesmo tema, ou os mesmos temas, varias vezes. Por exemplo, a morte, a paixao, a riqueza, a gloria, a justica, a virtude, etc., quantas vezes Montaigne as ensaiou na 'retorta' da vida! (Lima, 1946, p. 106)

Os poucos anos que separam Montaigne e Descartes sao cruciais para determinar dois modelos de ensaismo. A diferenca recairia, sobretudo, no fato de Descartes ja estar, em meados do seculo XVII, "[...] de posse de um aparelho logico-matematico, de amplitude universal. O seu ensaio [...] pertence ja a nova razao quantitativa [...]" (Lima, 1946, p. 107). Essa 'amplitude universal' mencionada por Lima torna-se determinante na ruptura ocorrida no pensamento renascentista, entre o periodo que compreende Montaigne e Descartes, e, nesse sentido, tambem na mudanca paradigmatica do proprio conceito de ensaio. Se com o primeiro filosofo temos uma escrita comprometida com a experiencia, a subjetividade e a rememoracao, no segundo encontramos um texto comprometido com a ideia de 'verdade universal'. Para Lima, "[...] o cartesianismo 'afogaria' o pluralismo de Montaigne; entronizaria a razao sobre o ostracismo da vida e da historia" (Lima, 1946, p. 109).

Enquanto a logica cartesiana se afirmava como modelo de pensamento no decorrer do seculo XVII, Montaigne tornava-se obsoleto. O seculo da razao "[...] secou a veia inovadora do ensaismo [...]" (Lima, 1946, p. 146) na Europa, e um abismo separava, portanto, as novas praticas ensaisticas que surgiam nas decadas de 1600 daquilo que Montaigne denominou, no seculo anterior, Ensaios.

Embora Lima tenha escrito sobre 'a essencia do ensaio', seu texto constroi uma severa critica a hierarquizacao dos generos durante o seculo XVII:

Boileau, ao delinear a sua sistematizacao normativa e programatica, obedecia nao so a "imitacao" da Antiguidade Classica (Homero, Platao, Aristoteles, Horacio) como ao racionalismo cartesiano. Num seculo tao sequioso de ideias claras e distintas, num seculo entronizador da evidencia e forjador do metodo e da linguagem reduzida esta a uma especie de algebra translucida e exacta, num seculo de ordem e de estatizacao realengas, como nao havia Boileau (burgues dos quatro costados e parisiense da gema) de disciplinar a literatura, distribuindo-a por generos e especies, como quem desfaz a selva e a jardina num luminoso parque de impecaveis linhas geometricas? (Lima, 1946, p. 172).

A hierarquizacao dos generos feita por Boileau evidenciaria o 'espirito geometrico' do seculo XVII, legado por Descartes. Classificar os textos literarios corresponderia a mesma ordenacao dada as ciencias exatas, biologicas e, num sentido mais amplo, a estrutura social: "[...] a 'noblesse d'epee', a 'noblesse de robe', a 'grande noblesse', a 'petite noblesse'" (Lima, 1946, p. 173). Corresponderia, portanto, a uma atitude excludente e nao menos autoritaria que o absolutismo de Luis XIV na Franca.

Tendo em vista a ordenacao dada a literatura, Lima se interroga: "E o ensaio? Pode-se ver nele um genero?" (Lima, 1946, p. 201). A epigrafe dada a esse capitulo foi, precisamente, a resposta do autor: "O ensaio e uma atitude gimnastica do intelecto que, repudiando o autoritarismo, pensa firmemente por si so e por si proprio" (Lima, 1946, p. 201). Tal como o espirito humanista de Montaigne, ensaiar significava, no seculo XVI, elevar a consciencia critica sobre a humana condicao. Portanto, segundo Silvio Lima, a pratica ensaistica corresponderia a uma tarefa instavel e inclassificavel, uma vez que repudiaria o autoritarismo e privilegiaria o livre exame, tal como Montaigne outrora propos.

E. Prado Coelho, filosofo e ensaista portugues, tambem se dedicou a investigar o genero. Para ele, "[...] o ensaio nao atinge a verdade, vive sempre separado dela" (Coelho, 1997, p. 39). Essa perspectiva do autor de O calculo das sombras corrobora a ideia de que nao se pode atribuir uma essencia ao ensaio, sobretudo devido ao papel instabilizador que a pratica ensaistica da tanto ao que se propoe discutir, tratando subjetivamente seu objeto, quanto "[...] na arquitectura dos generos literarios" (Coelho, 1997, p. 18), ao pensa-lo como texto isento de fronteiras rigidas.

A palavra ensaio provem do latim exagium, que significa exame. O verbo ensaiar, portanto, poderia ser traduzido como examinar, no sentido de pesar, balancear. Se insistirmos na etimologia de exagium, teremos 'exigo', "[...] que significa uma atitude de 'exigencia' que leva a 'expulsar' aquilo que nao passa pelo 'crivo' (isto e, pela 'critica') de uma posicao de rigor" (Coelho, 1997, p. 19, grifos do autor). Associado aos verbos 'exigir, balancear, ponderar', o ensaio corresponde tambem ao ato de 'pesar', o que confere ao vocabulo um parentesco com o verbo 'pensar'. Dessa forma, ensaiar, pensar e exercitar sao elocucoes que exprimem um exercicio intelectual. Mas num outro plano semantico, o ensaio associa-se ao ato de por a prova e, nesse sentido, 'saborear' previamente algo, provar, experimentar:

[...] o ensaio surge como um ato de por a prova, numa acepcao que talvez nao seja alheia ao saborear previo dos alimentos com que se pretendia eliminar o efeito de eventuais venenos criminosos. Isto e, atraves de uma experiencia, procura-se afastar o que podera ser perigoso para a conservacao do individuo, quer do ponto de vista fisico (o veneno), quer do ponto de vista mental (a ideia envenenada) (Coelho, 1997, p. 19).

Como aponta Prado Coelho, do ponto de vista fisico, o ensaio associa-se a prova, experimentacao, degustacao. Ja numa perspectiva intelectual, ensaiar aproxima-se de uma atitude de limpeza das ideias e, nesse sentido, de uma experiencia ludica.

A experiencia do ensaio, em Montaigne, liga-se a essa instabilidade da propria natureza do vocabulo, e parece refletir o espirito humanista perante as grandes transformacoes que o mundo quinhentista atravessava. Por ser considerado um produto renascentista, tendo surgido com Montaigne, o ensaio, enquanto genero, foi carregado do espirito humanista do seculo XVI frances. Os Ensaios do filosofo frances se inscrevem numa perspectiva humanista, mas o genero somente se afirmou mais tarde, dentro de uma perspectiva iluminista, heranca de Descartes:

[...] o grande confronto se realiza entre as trevas e a luz da Razao--uma perspectiva iluminista, por conseguinte. De um lado, as supersticoes, os dogmas. Do outro, por um livre exercicio da razao de cada homem, a afirmacao da liberdade do pensamento como exame ponderado de todas as ideias. De certo modo, a medida que as trevas se reduziam, ia-se implantando a visao cientifica do mundo--as coisas tal como elas sao, segundo o modelo positivista (Coelho, 1997, p. 24).

O ensaio se modifica ja no seculo XVII com Descartes e passa a ser nao so um genero cientifico e filosofico como, tambem, um veiculo para bem conduzir as ideias e a nocao de 'verdade'. A medida que as trevas se reduziam, a visao cientifica se alargava.

Foi, portanto, motivado pela negacao da visao positivista do mundo que T. Adorno elaborou sua critica as formas e G. Lukacs procurou reconciliar alma e forma. Resgatar o ensaio no seculo XX correspondeu, em contrapartida a perspectiva positivista, a redescoberta de algumas caracteristicas do genero, tais como a subjetividade e a presenca da experiencia autoral:

Torna-se extremamente sugestivo verificarmos que no inicio do seculo XX, se vai desenvolver toda uma densa reflexao sobre a pratica ensaistica e que o horizonte teorico onde ela se recorta e precisamente o dessa cultura literaria de raiz romantica que nos teria ficado como heranca do idealismo metafisico (Coelho, 1997, p. 30-31).

Prado Coelho esclarece que a redescoberta do ensaio no seculo XX corresponde nao somente a uma revisao do genero como, tambem, a uma busca por novos criterios artisticos que nao mais prescindissem dos discursos das ciencias. O ensaista do seculo XX ressurge das cinzas de um mundo secularizado, mantendo "[...] 'a esperanca' de uma salvacao num mundo deserto e reificado" (Coelho, 1997, p. 41, grifos do autor).

Recolocando o ensaio numa perspectiva mais subjetiva e, portanto, menos cientifica, Adorno escreveu o texto O ensaio como forma. Diferentemente de Lukacs, que propunha a reconciliacao entre arte e ciencia, subjetividade e objetividade, individuo e genero, Adorno via os aspectos positivistas do Realismo literario como negativos. Embora os dois filosofos alemaes tenham nutrido suas diferencas no que tange ao Realismo literario e a Arte Moderna, ambos acreditavam na autonomia do ensaio. Em carta a Leo Popper, Lukacs questionava em que medida o ensaio seria, de fato, um genero independente justamente por estar entre a arte e a ciencia:

En que medida poseen forma los escritos realmente grandes que pertenecen a esta categoria, y en que medida esta forma es independiente; en que medida el tipo de intuicion y su configuracion excluyen la obra del campo de las ciencias y las ponen junto al arte, pero sin borrar el limite entre ambos (Lukacs, 1975, p. 15).

Devemos considerar, portanto, que o ensaio, enquanto texto dotado de autonomia, compreende essa capacidade de dizer algo na fronteira entre a arte e a ciencia, e dessa forma tambem se caracteriza como texto em que a experiencia humana torna-se vital para a construcao dos conceitos.

Em seu texto O ensaio como forma, Adorno retoma o carater hibrido do ensaio e acredita que a insistente recusa da critica--nao apenas literaria--a esse genero deveu-se inicialmente porque a sua forma e, sobretudo, hibrida, o que levou esse tipo de texto a ser desacreditado, durante o seculo XIX e inicio do seculo XX. Sendo inicialmente considerado um genero menor principalmente devido ao seu teor pouco cientifico, aos poucos se tornou cada vez mais comum utilizar o ensaio como expressao critica por centenas de outros autores, alem dos ja referidos pensadores da escola de Frankfurt:

Que, na Alemanha, o ensaio esteja desacreditado, como produto hibrido; que careca de uma convincente tradicao formal; que so de modo intermitente foram atendidas as suas mais enfaticas exigencias: tudo isso ja se comprovou e se censurou suficientes vezes (Adorno, 1986, p. 167).

O paragrafo supracitado inaugura o texto de Adorno. Censura e descredito marcam as impressoes da academia diante do ensaio, considerado por outros criticos, segundo o autor, pouco rigoroso no que tange a ciencia do universal, da origem e da sintese. Foi em contraposicao aos positivistas do seculo XIX que Adorno elaborou boa parte de suas ideias sobre o ensaio, discorrendo sobre sua repugnancia aos ideais de 'pureza e limpeza', imputados aos estudos da cultura:

Os ideais de pureza e limpeza, que sao comuns a uma filosofia voltada para valores eternos, para uma ciencia organizada de cima ate embaixo, sem lacunas, coerente e intangivel, bem como a arte intuitiva despida de conceitos, tais ideais trazem os tracos de uma ordem repressiva. Passa-se a exigir do espirito um certificado de competencia administrativa, para que ele, ao ater-se as linhas limitrofes culturalmente delineadas e sacramentadas, nao va alem da propria cultura oficial (Adorno, 1986, p. 172).

Essa segregacao do saber, ordenada pela vertente positivista, culminaria, segundo Adorno, no pensamento fascista, nessa ordem repressiva por ele mencionada. Sua escolha em escrever por meio de ensaios deve-se a uma ideia de revolucao que poderia estar em sua propria forma antissistematica, que nao separaria a diversidade presente na linguagem e, por isso, compreenderia um carater hibrido.

De acordo com Adorno, uma das caracteristicas do ensaio seria exatamente a de que "[...] seus conceitos nao se constroem a partir de algo primeiro nem se fecham em algo ultimo" (Adorno, 1986, p. 168). Ele enxergava o ensaio como forma capaz de permitir a presenca da subjetividade do autor para expressar-se criticamente. A falta de precisao nos aspectos esteticos marcaria o lugar hibrido desse genero, levando-o a ocupar uma nova forma a partir de sua 'autonomia estetica' (Adorno, 1986).

A espontaneidade presente no ensaio ressalta nao so uma presenca autoral dotada de vitalidade, como tambem uma valorizacao do objeto em discussao, quando se lhe esta provendo de uma luz particular, e nao universal. Forma e conteudo tornam-se, portanto, indissociaveis nesse genero, diferentemente do pensamento positivista criticado por Adorno, cuja exposicao do objeto "[...] nao consegue ultrapassar, neste como em todos os seus demais momentos, a mera separacao entre forma e conteudo" (Adorno, 1986, p. 169). Adorno ressalta, porem, que tambem existem os 'maus ensaios', ou seja, aqueles que se enredam nas convencoes da industria cultural. Como exemplo, cita alguns romances biograficos, muitas vezes encomendados segundo exigencias do mercado editorial. A aproximacao desses dois generos--os romances biograficos e os ensaios--tem, nao por acaso, um ponto que os confunde: a exposicao de certa mirada subjetiva. Mas ao contrario dos 'bons ensaios', Adorno destaca que os 'maus' estao congruentes com a manutencao do status quo, pois trabalham com cliches, e nao conceitos, falam "[...] de pessoas, ao inves de desvendar coisas" (Adorno, 1986, p. 170). Para Adorno, o bom ensaio deve tirar as ideias da reificacao, isto e, da ordem repressiva, da organizacao cientifica pautada em conceitos de "[...] pureza e limpeza" (Adorno, 1986, p. 172). Isto nao significa que ele propunha um pensamento despretensioso, mas ao contrario. O ensaio e justamente aquele que, por sua forma mesma, combate uma norma imposta.

Na critica de Adorno ao pensamento positivista, destacam-se os demasiados rigor e a normatizacao. Sabe-se que ele acreditava que o excesso de ordenacao teria culminado no pensamento fascista (1). Por isso, a concepcao adorneana de ensaio apresenta um carater libertario quando levamos em conta o seu desprezo a rigidez de estruturas textuais. O ensaio elabora sua reflexao a partir de uma "[...] renuncia a abrangencia" (Adorno, 1986, p. 176).

Esse argumento de Adorno tambem pode ser verificado em sua obra Minima Moralia. Nesse livro, escrito nos anos 1940 e tendo como fundo a Segunda Guerra Mundial, o autor expoe seus pontos de vista sobre assuntos gerais e cotidianos, em nivel, sobretudo, da importancia da experiencia como possibilidade de humanizacao. Seguindo aquele argumento de Montaigne de que a linguagem deve estar proxima do homem comum, da experiencia do individuo, Adorno acredita que a linguagem nao espiritualizada, isto e, fora de um contexto mais humano, mais subjetivo, anuncia a presenca da diccao fascista:

A palavra direta, que sem delongas, hesitacao e reflexao diz as coisas na cara do interlocutor, ja possui a forma e o timbre do comando, que, sob o fascismo, vai dos mudos aos calados (Adorno, 1993,

p. 35).

Hoje, podemos analisar a importancia da obra de Adorno como legado para a academia e, em especial, para os estudos literarios: durante a primeira metade do seculo passado, o ensaio mostra-se como uma importante estrategia de tirar a linguagem criticotextual da reificacao, a partir de seu carater fragmentario, como definiu Adorno, e de sua antissistematizacao que, como forma, combate, atraves da propria linguagem, a ideologia fascista que se alastrou por parte da Europa nesse periodo.

Segundo Prado Coelho, a diccao ensaistica do ensaio do seculo XX tende a diluir fronteiras, no que se refere ao genero textual, a tematica e a forma. Essa tendencia observada em Adorno e passando, mais tarde, para grandes nomes como Barthes e Derrida, "[...] conduz a pulsao ensaistica a uma nova rejeicao de quaisquer limites" (Coelho, 1997, p. 48). A diluicao de fronteiras na escrita ensaistica marca, sobretudo, uma forma de resistir a heranca iluminista do ensaio-exame, inaugurada com Descartes e reiterada pelos positivistas do seculo XIX.

Nessa perspectiva, o ensaio recupera uma de suas importantes caracteristicas, ja inscritas em sua etimologia. Se a palavra exagium da origem a 'exame', ela tambem mantem um estreito vinculo com 'enxame', substantivo coletivo que denota multiplicidade. Essa multiplicidade se estende a diversos campos do conhecimento, desde a discussao sobre os generos ate uma critica mais radical acerca da modernidade. Se a indeterminacao entre generos pode ser expressa no texto ensaistico, temos, ai, um espaco textual fronteirico, propicio a convergencia de conceitos, linguagens e da propria ruptura entre o mundo medieval e o moderno, tal como ocorreu na passagem entre o ensaismo de Montaigne para o de Descartes:

Podemos dizer que a concepcao humanista do ensaio, exemplificada pela abordagem de um Silvio Lima, se inscreve numa perspectiva do conhecimento humano em que o grande confronto se realiza entre as trevas e a luz da Razao--uma perspectiva iluminista, por conseguinte. De um lado, as supersticoes, os dogmas. De outro, por um exercicio da razao de cada homem, a afirmacao da liberdade do pensamento como exame ponderado de todas as ideias. De certo modo, a medida que as trevas se reduziam ia-se implantando a visao cientifica do mundo--as coisas tal como elas sao, segundo o modelo positivista (Coelho, 1997, p. 24)

Consideracoes finais

O ensaio inscreve-se, em sua genese, nessa passagem de um mundo marcado pela religiosidade, o dogmatismo medieval e o alargamento das fronteiras nao so religiosas como, tambem, territoriais e cientificas. O genero ocupa, portanto, uma especie de nao lugar, seja como texto que se inscreve, ao mesmo tempo, entre a ciencia e a arte, seja como espaco conceitual conflituoso. Mediante tais consideracoes, entende-se que o ensaio caracteriza-se como espaco nao canonico, em que ensaiar uma forma de pensamento nao convencional, ou que esteja fora de um lugar central das areas do saber, pode significar, tambem, produzir perspectivas desajustadas.

Para Eduardo Lourenco, a fragmentacao, caracteristica do texto ensaistico, pode ser traduzida com a metafora da ilha: "Em cada ilha, em cada momento do meu discurso, esta sempre presente essa totalidade impossivel" (Lourenco apud Catroga & Gil, 1996, p. 55). Essa afirmacao do critico portugues deve-se a sua crenca sobre a impossibilidade de se conceber uma 'verdade' totalizante e universal, visto que a experiencia e naturalmente fragmentaria.

Considerando o ensaio como texto em que os discursos e generos nao se fixam nem se canonizam, mas transitam, suplementam-se e dialogam entre eles, temos a nocao de Ensaio associada a um espaco fronteirico e de convergencia de conceitos. A pratica ensaistica, como exercicio de uma escrita instavel e sempre em processo, engendraria um tipo de escrita favoravel a multiplicidade heterodoxa que, por admitir muitas experimentacoes, culmina num estilhaco da experiencia, numa escrita fragmentaria.

A nocao de 'heterodoxia' foi, nos anos de 1950, motivo de reflexao na cultura portuguesa, sobretudo devido a publicacao do primeiro livro de Eduardo Lourenco, em 1949, intitulado Heterodoxia. Nessa obra, Lourenco discute a filosofia moderna, iniciada com Descartes, e problematiza 'a ideia duma unidade do saber' (Lourenco, 2005) a partir da proposicao do pensamento heterodoxo e de sua critica a dialetica hegeliana. O autor teve grande influencia da filosofia de Kierkegaard e da literatura de Fernando Pessoa, sendo, inclusive, responsavel pela redescoberta do poeta em Portugal.

Na altura Pessoa comecava a figurar como um autor maldito e a minha primeira intervencao cultural foi a de defender o poder subversivo dos seus textos. Foi uma intervencao polemica, em resposta a um artigo que apareceu entao, da autoria de Mario Dionisio, onde Pessoa era descrito como representante tipico do decadentismo da burguesia ocidental. Mas so a pouco e pouco e que o conhecimento mais profundo de Fernando Pessoa se revelou como qualquer coisa que ia alem do poetico e da ordem estetica, impondo-se como uma visao do mundo que punha em causa o discurso dominante em todas as ordens. Pessoa foi, efectivamente, o desarrumador definitivo, naquela epoca do discurso cultural portugues (Lourenco apud Catroga & Gil, 1996, p. 52)

Assim como a poesia de Pessoa, a filosofia de Kierkegaard representaria, para o jovem Lourenco, uma perspectiva heterodoxa, que se expandiria para a multiplicidade, para o contrario da unidade. Dessa forma, resgatar o filosofo dinamarques e redescobrir a obra de Pessoa apontaria para o desejo de tambem rediscutir um sistema ocidental de unicidade e reificacao. Ele adota como modelo, como afirmou em entrevista a Catroga e Gil (1996), o ensaismo de Montaigne,

[...] que assume frontalmente a subjectividade com tudo o que ela tem de positivo, fazendo do individuo o proprio centro do mundo, e ao mesmo tempo pondo-se em causa (Lourenco apud Catroga & Gil, 1996, p. 53).

E definitivamente a subjetividade do espirito heterodoxo que elege o texto ensaistico como escrita heterodoxa por excelencia e, nesse sentido, lugar tambem da convergencia de saberes.

O livro O ensaismo tragico de Eduardo Lourenco, de Catroga e Gil (1996), demonstra aspectos dos ensaios de Eduardo Lourenco que se relacionam a nocao de heterodoxia, tais como a amplitude interdisciplinar "[...] que se abre para inumeros campos, filosofico, literario, artistico, politico, historico" (Catroga & Gil, 1996, p. 7). A multiplicidade ensaistica, no que diz respeito a abrangencia de varios campos do saber, compreenderia essa nocao de heterodoxia, assim como uma 'metafisica da interrogacao', "[...] um conceito de interrogacao permanente" (Lourenco apud Catroga & Gil, 1996, p. 49).

Se a heterodoxia e, portanto, um exercicio de reflexao e interrogacao constante, o conceito expande-se para o 'Saber', com inicial maiuscula, como fonte de movimento humano, para frente, e nao de forma circular, como Migdar, mito utilizado por Lourenco para exemplificar o espirito ortodoxo, uma vez que a serpente buscaria circularmente e infinitamente a propria cauda.

Dessa forma, o ensaio, ao partir da experiencia e da multiplicidade, nao pode descrever com totalidade uma ou outra verdade, conceito ou ideia. O proposito dele dilui-se em tentativas, desejos, sempre ensaiados, nunca prontos:

A glosa interminavel desta decisao consciente da sua propria inanidade, lugar da interpelacao pura, sem resposta a vista, manifesta em letra de forma, e o que se costuma chamar, desde Montaigne, 'ensaio' (Lourenco, 2006, p. 13).

Assim como indica a afirmacao de Lourenco, o ensaio e o lugar 'da interpelacao pura, sem resposta a vista' e forma um amplexo fertil para reflexao, cuja essencia esta na nao essencia, no nao lugar, no espaco fronteirico entre razoes heterodoxas.

Doi: 10.4025/actascilangcult.v38i1.27774

Referencias

Adorno, T. (1993). Minima Moralia (2a ed.). (Luiz Eduardo Bicca). Sao Paulo, SP: Atica.

Adorno, T. (1986). O ensaio como forma. In G. Cohn (Org.), Sociologia (p. 167-189). Sao Paulo, SP: Atica.

Catroga, F., & Gil, J. (1996). O ensaismo tragico de Eduardo Lourenco. Lisboa, PT: Relogio D'agua.

Coelho, E. P. (1997). Sobre o ensaio em geral. O calculo das sombras. Lisboa, PT: Asa.

Descartes, R. (1996). Discurso do Metodo. (Maria Ermantina Galvao G. Pereira, trad.). Sao Paulo, SP: Martins Fontes.

Lima, S. (1946). Ensaio sobre a essencia do ensaio. Sao Paulo, SP: Saraiva.

Lourenco, E. (2005). Heterodoxia I. Lisboa, PT: Gradiva.

Lourenco, E. (2006). Heterodoxia 11. Lisboa, PT: Gradiva.

Lukacs, G. (1975). El alma y en las formas. Barcelona, ES: Grigalbo.

Montaigne, M. (1972). Ensaios. (Sergio Milliet, trad.). Sao Paulo, SP: Abril.

Received on May 10, 2015.

Accepted on November 30, 2015.

Josyane Malta Nascimento

Universidade do Estado do Amazonas, Av. Djalma Batista, 2470, 69050-010, Manaus, Amazonas, Brasil. E-mail: josyanemalta@gmail.com

(1) Em Dialetica do esclarecimento, Adorno e Horkheimer expoem os processos de revisao do Iluminismo, cuja visao ordenada de vida geraria uma nova forma de escravidao que culminaria no que foi a elaboracao dos principios fascistas do seculo XX.
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